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Brasil e Índia avançam em ampliação do acordo comercial com o Mercosul

30 de ago.
8 min de leitura

Brasil e Índia querem transformar uma relação comercial que já cresce em uma agenda mais ampla de integração produtiva, investimentos e cooperação industrial. O movimento ganhou força nesta sexta-feira (28), em Brasília, quando representantes dos dois governos discutiram a ampliação do acordo comercial entre o Mercosul e o país asiático.


O encontro reuniu o secretário de Comércio da Índia, Rajesh Agrawal, e a secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Tatiana Prazeres. A reunião ocorreu após uma sequência de compromissos com empresários e autoridades, em um sinal de que a pauta deixou de ser apenas diplomática e passou a envolver diretamente o setor produtivo.


A meta é ambiciosa: aproximar o comércio bilateral de US$ 30 bilhões até 2030. Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, o ritmo atual já indica avanço importante. A corrente de comércio entre os dois países cresceu 20% em relação ao ano anterior e já supera US$ 15 bilhões.


Esse cenário ajuda a explicar por que a ampliação do acordo Mercosul-Índia entrou de vez na agenda. Para o Brasil, a Índia combina mercado consumidor amplo, demanda por alimentos, energia, minerais e fertilizantes. Para a Índia, o Brasil oferece escala agrícola, base industrial, recursos naturais e uma porta de entrada estratégica para a América do Sul.


O que esteve em discussão em Brasília


A reunião em Brasília tratou da ampliação do acordo comercial entre o Mercosul e a Índia, um tema que envolve o Brasil, os demais países do bloco sul-americano e o governo indiano. Como o acordo é Mercosul-Índia, qualquer avanço precisa considerar a posição conjunta do bloco, não apenas a negociação bilateral entre Brasília e Nova Délhi.


Ainda assim, o Brasil tem papel central nessa conversa. O país é a maior economia do Mercosul e um dos principais interessados em ampliar o alcance da relação comercial com a Índia. O encontro entre Rajesh Agrawal e Tatiana Prazeres indica uma tentativa de dar ritmo técnico às negociações, depois de sinais políticos já emitidos pelos dois governos.


Durante a visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Índia, em fevereiro, os países reafirmaram o compromisso de ampliar o acordo Mercosul-Índia e caminhar para uma relação comercial mais abrangente. A reunião desta sexta-feira funciona como um passo de continuidade, com foco em temas concretos de comércio, investimentos e cadeias produtivas.


Na prática, ampliar um acordo comercial pode envolver diferentes medidas, como:


  • incluir mais produtos nas listas negociadas;

  • reduzir barreiras tarifárias para setores específicos;

  • facilitar o comércio entre empresas;

  • aproximar regras técnicas e procedimentos;

  • criar canais permanentes entre governos e entidades empresariais.


Nenhum desses pontos avança de forma automática. A negociação precisa conciliar interesses de setores distintos, demandas dos países do Mercosul e prioridades da Índia. Mesmo assim, o crescimento recente do comércio cria um ambiente mais favorável para conversas de maior alcance.


Por que a aproximação comercial ganhou força


O comércio entre Brasil e Índia deixou de ser uma pauta distante. Segundo Márcio Elias Rosa, os dois países vivem um momento de expansão relevante. A corrente de comércio já está acima de US$ 15 bilhões e cresce em ritmo próximo ao necessário para alcançar a meta de US$ 30 bilhões em 2030.


“Brasil e Índia vivem um momento muito peculiar. Há hoje uma expansão crescente do nosso comércio. Brasil e Índia têm hoje uma corrente de comércio 20% maior do que era um ano atrás e nós já estamos chegando numa meta que foi estabelecida reciprocamente, que era de até US$ 30 bilhões em 2030. Nós já estamos superando US$ 15 bilhões”, afirmou Márcio Elias Rosa.

O dado mostra duas coisas. A primeira é que a relação já tem volume suficiente para justificar uma negociação mais ampla. A segunda é que ainda existe espaço para crescer, principalmente se os países conseguirem reduzir obstáculos, conectar empresas e diversificar a pauta comercial.


Hoje, a aproximação entre Brasil e Índia não se limita à venda de produtos. Os dois governos falam cada vez mais em cadeias produtivas. Isso significa olhar para etapas diferentes da produção, desde insumos e matérias-primas até tecnologia, fabricação, distribuição e serviços associados.


Esse enfoque muda o tipo de conversa. Em vez de discutir apenas quem vende mais ou compra mais, Brasil e Índia passam a avaliar onde podem produzir juntos, complementar capacidades e atrair investimentos.


As cadeias produtivas que entram no radar


O governo brasileiro identifica oportunidades em setores como agronegócio, fertilizantes, sementes, autopeças e indústria farmacêutica. A escolha não é casual. São áreas em que os dois países têm interesses complementares e desafios comuns.


O agronegócio segue como eixo estratégico


O agronegócio brasileiro tem escala, produtividade e presença global. A Índia, por sua vez, reúne uma população numerosa, demanda crescente por alimentos e forte peso do setor agrícola em sua economia. Essa combinação torna o tema inevitável em qualquer agenda comercial entre os dois países.


A aproximação pode envolver comércio de alimentos, cooperação em produtividade, troca de conhecimento técnico e participação de empresas dos dois lados em cadeias ligadas ao campo. O tema das sementes também se conecta a essa agenda, já que envolve tecnologia, adaptação climática, produtividade e segurança alimentar.


Para o Brasil, ampliar a relação com a Índia pode significar acesso a um mercado com enorme potencial. Para a Índia, a parceria com o Brasil pode ajudar a diversificar fornecedores e ampliar alternativas em setores estratégicos.


Fertilizantes têm peso especial para o Brasil


Fertilizantes aparecem entre os temas de maior interesse porque o Brasil depende fortemente desses insumos para sustentar sua produção agrícola. Qualquer avanço que aumente previsibilidade, diversifique fornecedores ou estimule investimentos no setor tem impacto direto sobre o campo.


A Índia também tem uma agenda relevante nessa área, tanto pelo tamanho de sua agricultura quanto por suas necessidades industriais. A cooperação pode mirar comércio, produção, tecnologia e segurança de suprimento.


Esse ponto tem importância prática. Fertilizantes influenciam custos de produção, preços no campo e competitividade das exportações agrícolas. Por isso, o tema tende a permanecer no centro da agenda econômica entre os dois países.


Autopeças e indústria farmacêutica ampliam o escopo industrial


A presença de autopeças na lista mostra que a conversa não está restrita a commodities ou produtos básicos. Brasil e Índia têm bases industriais relevantes e podem buscar oportunidades na produção de componentes, fornecimento para montadoras e integração entre empresas.


A indústria farmacêutica também merece atenção. A Índia tem forte presença global nesse setor, especialmente na produção em larga escala de medicamentos e insumos. O Brasil, por sua vez, tem um mercado de saúde grande e uma agenda constante de fortalecimento da produção local.


Uma aproximação nessa área pode envolver comércio, investimentos, parcerias industriais e cooperação regulatória. Como se trata de um setor sensível, qualquer avanço precisa respeitar normas sanitárias, propriedade intelectual, segurança do paciente e políticas públicas de saúde.


O memorando entre ApexBrasil e a Confederação da Indústria Indiana


A agenda empresarial ganhou um instrumento específico com a assinatura de um memorando de entendimento entre a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, a ApexBrasil, e a Confederação da Indústria Indiana.


O objetivo é aproximar setores produtivos, estimular o comércio e abrir caminho para investimentos. Esse tipo de memorando não resolve sozinho gargalos comerciais, mas cria canais de contato e pode facilitar encontros entre empresas, missões comerciais e identificação de oportunidades.


A presença de empresários indianos na comitiva reforça esse aspecto. Negociações entre governos definem regras e direções, mas o aumento real do comércio depende de empresas dispostas a comprar, vender, investir e assumir riscos.


Para que a aproximação avance, alguns fatores serão decisivos:


  • clareza sobre setores prioritários;

  • redução de entraves logísticos e burocráticos;

  • previsibilidade regulatória;

  • informação de mercado para pequenas, médias e grandes empresas;

  • continuidade das conversas depois dos encontros oficiais.


O memorando pode ajudar nesse último ponto. Relações comerciais consistentes exigem acompanhamento, não apenas agendas pontuais.


Minerais críticos entram na agenda de longo prazo


Minerais críticos também fazem parte da aproximação econômica entre Brasil e Índia. Em fevereiro, os dois países firmaram um acordo de cooperação no setor, que passou a integrar a agenda industrial e econômica dos governos.


O interesse é compreensível. Minerais críticos são importantes para tecnologias ligadas à transição energética, baterias, equipamentos eletrônicos, defesa, infraestrutura e indústria de alto valor agregado. Países com grandes mercados e planos de industrialização tendem a buscar fontes seguras desses minerais e parcerias confiáveis.


O Brasil tem reservas minerais relevantes e busca agregar mais valor à exploração de seus recursos. A Índia, com uma indústria em expansão, tem interesse em garantir acesso a insumos estratégicos e fortalecer cadeias produtivas.


A cooperação nesse campo pode ir além da extração. O desafio maior está em desenvolver processamento, pesquisa, tecnologia, rastreabilidade e produção industrial associada. Se a agenda ficar restrita à venda de matéria-prima, o potencial será menor. Se incluir etapas de maior valor, pode contribuir para uma relação econômica mais equilibrada.


O papel do Mercosul na negociação


Embora Brasil e Índia tenham uma relação bilateral forte, a ampliação do acordo comercial depende do Mercosul. Isso significa que Argentina, Paraguai, Uruguai e os demais participantes da dinâmica do bloco precisam ser considerados nos próximos passos.


Esse ponto torna a negociação mais complexa. Cada país tem sua estrutura produtiva, seus setores sensíveis e seus interesses ofensivos, aqueles em que deseja vender mais. Ao mesmo tempo, negociar como bloco aumenta o peso do Mercosul diante de uma economia do tamanho da Índia.


Para o Brasil, o desafio é alinhar a ambição bilateral com a construção de consenso regional. Se esse equilíbrio avançar, o acordo pode ganhar escopo e relevância. Se houver resistência setorial ou divergências entre os membros do bloco, o ritmo pode ser mais lento.


A Índia também terá suas próprias prioridades. O país costuma analisar com cuidado os impactos de acordos comerciais sobre sua indústria, agricultura e empregos. Por isso, a ampliação tende a exigir uma negociação técnica detalhada, com ganhos bem definidos para os dois lados.


O que pode mudar para empresas brasileiras


Para empresas brasileiras, uma relação comercial mais ampla com a Índia pode abrir oportunidades em exportação, importação, investimento e cooperação produtiva. O potencial varia conforme o setor, mas o movimento interessa especialmente a companhias que já atuam em mercados externos ou que buscam diversificar destinos.


No agronegócio, o interesse pode envolver alimentos, insumos e tecnologia ligada ao campo. Na indústria, autopeças, fármacos e produtos químicos podem ganhar espaço na agenda. Em minerais, empresas ligadas à exploração, processamento e equipamentos podem acompanhar os desdobramentos com atenção.


A ampliação do acordo também pode criar oportunidades indiretas. Serviços logísticos, certificação, consultoria regulatória, financiamento, seguros e inteligência comercial costumam crescer quando o comércio entre países se intensifica.


Ainda assim, a entrada em um mercado como o indiano exige preparo. Diferenças regulatórias, culturais, tributárias e logísticas podem elevar custos para empresas sem experiência internacional. Por isso, a aproximação institucional entre ApexBrasil e entidades indianas pode ser útil para reduzir assimetria de informação.


O que vem pela frente


A reunião desta sexta-feira não encerra a negociação. Ela reforça uma agenda que ganhou impulso político em fevereiro e agora precisa avançar em frentes técnicas, empresariais e regionais.


Os próximos passos devem passar por conversas dentro do Mercosul, diálogo com setores produtivos e definição de prioridades com a Índia. A velocidade dependerá da capacidade dos países de identificar ganhos mútuos e tratar pontos sensíveis sem travar a negociação.


O cenário, por enquanto, é favorável. O comércio cresce, a meta de US$ 30 bilhões até 2030 parece mais próxima e os dois governos já mapearam áreas de interesse comum. O desafio será transformar intenção em regras, projetos e negócios concretos.


A aproximação entre Brasil e Índia mostra uma mudança importante na política comercial brasileira. O país busca ampliar mercados, atrair investimentos e conectar sua base produtiva a economias de grande escala. Se o acordo Mercosul-Índia ganhar corpo, ele pode se tornar um dos eixos mais relevantes da relação do Brasil com a Ásia nos próximos anos.


 
 
 

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